Aquí nadie se rinde

26 Jul

O Leonel é militar da reserva há pouco tempo. Assistindo uma cópia pirada de Diamantes de Sangue, em italiano (?), e vendo cenas de rajadas de metralhadoras, não resiste e exclama, fazendo gesto de como se estivesse empunhando uma arma : “TÁ TÁ TÁ TÁ TÁ, é isso que eu sei fazer, TÁ TÁ TÁ TÁ TÁ”. Morador de Trinidad, ele lembra com detalhes da batalha da qual participou na praia de Giron. Para quem não sabe, Giron é onde fica o que o resto do mundo conhece como Bahia dos Porcos, local onde em 1961 ocorreu o desastroso ataque dos EUA, então sob a administração de Kenneddy, em uma tentativa de invadir o território cubano.

A esposa do Leonel, Terezinha, é conhecida tanto pela comida deliciosa e farta que alimenta os turistas como pelo aconchego da sua casa, onde é sagrado assistir, todas as noites, à novela brasileira do momento. A Terezinha prepara uma lagosta que deixa qualquer um enfarado de comer lagosta, algo para se exibir pelo resto da vida.

Pois é extremamente fácil largar um brasileiro em Trinidad e ele pensar que está em alguma cidade histórica mineira. Isso porque o local é uma pérola da arquitetura colonial, com algumas ladeiras e ruas que não seguem qualquer lógica, sendo o mapa item obrigatório para qualquer caminhada inocente. Não seguir este conselho implica se perder e a explicação é que a cidade foi construída em meio a ataques de piratas: as ruas foram feitas desta forma de propósito para eles fracassarem na tentativa de fuga. Funciona. De modo que o turista fracassa na tentativa de achar qualquer coisa sem usar mapa.

Em Trinidad é possível comer, dormir e passear gastando menos do que em Havana e se preocupando menos ainda com os jineteros, que existem mas em menor número. Andar na rua em Cuba é como segurar um letreiro luminoso dizendo “sou turista e tenho dinheiro”, mesmo quando apenas a primeira parte é verdadeira. Para os jineteros, não importa: se você é de fora, você tem dinheiro, está em férias e vai comprar tudo o que lhe for oferecido.

Jinetero é como se chama quem trabalha em uma profissão muito comum em Cuba, principalmente onde há turismo. É aquele cara que te oferece casa, taxi, charuto, restaurante e qualquer outra coisa que possa interessar, mesmo que ele próprio não possua nada com ele. Como ele ganha dinheiro? O dono do restaurante, por exemplo, lhe paga comissão por cada turista que ele consiga levar. E assim funciona com todos os produtos.

Já a jinetera não é o simples gentílico feminino. Aí é algo mais pejorativo, usado para designar prostitutas. Sim, em Cuba há machismo e preconceito, como no resto do mundo. Mais forte no Interior do que na Capital, como no resto do mundo. Muito do que se vê por lá, aliás, nos faz deixar de lado as diferenças de regime de governo e sentir-se em casa. Algumas das similaridades se devem ao fato de também sermos de um país do time dos descobertos, conquistados e exlorados, nesta ordem.

Em Cuba, como aqui, todos depositam esperanças no futuro e acreditam que o melhor está por vir, mesmo cientes de problemas como o crônico desabastecimento e a industria deficitária. Se lamentam terem passado por um governo torturador e assassino em pleno século XX (oi Brasil) – o Leonel não esqueceu o fato de ter ido reconhecer o cadáver dos irmãos, mortos misteriosamente – comemoram ainda a revolução conquistada com luta armada em 1959. O que é, aliás, motivo de orgulho que fica bem explícito quando o Leonel comenta satisfeito sobre uma ex-guerrilheira que recentemente assumiu o Brasil. Se ela foi contra a ditadura a ponto de ser guerrilheira, é porque tem coragem, e se ela tem coragem, isto é o mais importante, explica ele. Em Cuba, veja só, coragem é qualidade e das mais valorizadas.

Traduzindo em pixels

1 Mar

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Nós e eles

15 Fev

Dona Clara,  viúva de 82 anos, diplomata aposentada e filiada ao Partido Comunista de Cuba, pretende doar os livros que eram do marido, hoje acondicionados com carinho em uma móvel na sala de um espaçoso apartamento de 3 quartos na rua “L”, em Vedado, um dos grandes bairros de Havana. O material, que inclui obras de Lenin, Fidel e Jose Marti, deverá ser mais útil em uma biblioteca, explica ela, antes de pedir que eu fotografe a estante, com os livros entremeados por porta-retratos, para que ela guarde uma recordação em imagem do acervo literário político do companheiro.

Um dos itens, já com as páginas roídas, narra a passagem de Fidel Castro pela URSS, na década de 60, viagem de cuja comitiva fez parte o fotógrafo pessoal dele, que cobriu boa parte dos capítulos pré e pós-revolução e ficou famoso por uma foto não do Fidel, mas do então comandante Ernesto Che Guevara, sério, olhar fixo, em tom quase fúnebre. Este exemplar descansa hoje em outra estante, não de uma biblioteca cubana, mas de uma residência brasileira.

A vovó, fanzaça-de-novelas-brasileiras-mas-que-não-curtiu-A-Favorita, ilustra bem a necessidade de se ganhar dinheiro, o que não significa que o socialismo terminou ou faliu. Carente de grande parte das indústrias e sofrendo com o bloqueio dos EUA como um ferido perdendo sangue, Cuba amarga uma situação econômica delicada, com o comércio internacional limitado. O que reflete no cotidiano da população, que não consegue viver apenas com o que se ganha em salário. Quem tem um quarto sobrando, pode apostar, está o alugando pra turista.

Cientes de que a vida não está fácil, a maioria dos que viveram a fase pré-revolução creem, como Dona Clara definiu, que “o problema de Cuba não é político, apenas econômico”. Esta visão, claro, não é compartilhada pelos jovens, que contestam a ausência de eleições e ambicionam migrar para outros pagos – caso do Darian, que vive em Cienfuegos, e quer ir morar no país que faz com que a família dele, como a Dona Clara, também tenha que colocar um aposento da casa à disposição de estrangeiros.

“No es facil”, como o povo repete incansavelmente, é o lema de quem está acostumado a dançar conforme a música, a conviver com a falta de itens banais no resto do mundo e ainda assim não deixa ser esquecido o passado recente, há pouco mais de meio século, quando, sob ditadura violenta até para os padrões de uma ditadura, um grupo de descontentes achou que era a hora de terminar com a exploração imperialista que deixava a população analfabeta e miserável e os gringos fazendo a festa. “Não estamos num paraíso, mas ao menos não há fome e não temos que nos preocupar com pagar saúde, educação e segurança, além de água, luz e gás serem praticamente de graça”, alfineta Esteban, filho de Dona Clara, bem-informado sobre o Brasil, me dando nos dedos.

Mas por que tu vai pra Cuba nas férias? Tem praia lá?*

14 Fev

De "Cuba para principiantes"

A motivação para desembarcar em Cuba, em janeiro de 2011, no meu caso, conforme assinalei no pequeno formulário de meia folha entregue ainda no avião, para fins aduaneiros, foi “Turismo”. Na mesma página, onde perguntava o que eu levava comigo e deveria ser declarado – dando opções de resposta como eletrônicos, animais, vegetais etc – marquei “outros” e escrevi “curiosidade”. É isto o que eu levava em grande quantidade na mochila e tinha como objetivo deixar em Cuba,  o que, de certo modo, configura importação.

O turismo que eu disse pro Governo cubano que faria foi uma pequena mentira para fazer o que, em realidade, todos que vão à ilha caribenha fazem desde o instante em que pisam no Aeroporto Internacional Jose Marti: perguntam sobre tudo e para todos, ávidos por conhecer e entender como é a vida dos conterrâneos e que vivem sob a tutela daquele que diz, há algumas décadas, para os Estados Unidos: “Aqui não, violão”.

Neste caso, se aplica o lugar-comum que alguns dizem sobre qualquer local que visitam, de que é preciso ir até lá para realmente saber como é. Acredite: em Cuba, seja pelo filtro de informações do que chega até nós, não-cubanos, sobre tudo que se passa lá, ou pela diferença de necessidades, conceitos, valores e contexto histórico com que convive a população, só indo para compreender, ao menos uma parte da situação.

* E, para os que não curtem geografia, Cuba não apenas tem praias como tem belas praias, sendo uma ilha cercada pelo Mar do Caribe. Eu disse belas praias? Tem praias paradisíacas ( e vejo que este é o momento certo da vida para se usar a palavra paradisíaca com a devida justiça).

Ufa

22 Jul

Ela:

- O pior é que, dia sim, dia não, eu sonho contigo.

Ele:

- Putz. Que coisa. Eu só sonho contigo nos dias em que sonho. Menos mal…

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