O Leonel é militar da reserva há pouco tempo. Assistindo uma cópia pirada de Diamantes de Sangue, em italiano (?), e vendo cenas de rajadas de metralhadoras, não resiste e exclama, fazendo gesto de como se estivesse empunhando uma arma : “TÁ TÁ TÁ TÁ TÁ, é isso que eu sei fazer, TÁ TÁ TÁ TÁ TÁ”. Morador de Trinidad, ele lembra com detalhes da batalha da qual participou na praia de Giron. Para quem não sabe, Giron é onde fica o que o resto do mundo conhece como Bahia dos Porcos, local onde em 1961 ocorreu o desastroso ataque dos EUA, então sob a administração de Kenneddy, em uma tentativa de invadir o território cubano.
A esposa do Leonel, Terezinha, é conhecida tanto pela comida deliciosa e farta que alimenta os turistas como pelo aconchego da sua casa, onde é sagrado assistir, todas as noites, à novela brasileira do momento. A Terezinha prepara uma lagosta que deixa qualquer um enfarado de comer lagosta, algo para se exibir pelo resto da vida.
Pois é extremamente fácil largar um brasileiro em Trinidad e ele pensar que está em alguma cidade histórica mineira. Isso porque o local é uma pérola da arquitetura colonial, com algumas ladeiras e ruas que não seguem qualquer lógica, sendo o mapa item obrigatório para qualquer caminhada inocente. Não seguir este conselho implica se perder e a explicação é que a cidade foi construída em meio a ataques de piratas: as ruas foram feitas desta forma de propósito para eles fracassarem na tentativa de fuga. Funciona. De modo que o turista fracassa na tentativa de achar qualquer coisa sem usar mapa.
Em Trinidad é possível comer, dormir e passear gastando menos do que em Havana e se preocupando menos ainda com os jineteros, que existem mas em menor número. Andar na rua em Cuba é como segurar um letreiro luminoso dizendo “sou turista e tenho dinheiro”, mesmo quando apenas a primeira parte é verdadeira. Para os jineteros, não importa: se você é de fora, você tem dinheiro, está em férias e vai comprar tudo o que lhe for oferecido.
Jinetero é como se chama quem trabalha em uma profissão muito comum em Cuba, principalmente onde há turismo. É aquele cara que te oferece casa, taxi, charuto, restaurante e qualquer outra coisa que possa interessar, mesmo que ele próprio não possua nada com ele. Como ele ganha dinheiro? O dono do restaurante, por exemplo, lhe paga comissão por cada turista que ele consiga levar. E assim funciona com todos os produtos.
Já a jinetera não é o simples gentílico feminino. Aí é algo mais pejorativo, usado para designar prostitutas. Sim, em Cuba há machismo e preconceito, como no resto do mundo. Mais forte no Interior do que na Capital, como no resto do mundo. Muito do que se vê por lá, aliás, nos faz deixar de lado as diferenças de regime de governo e sentir-se em casa. Algumas das similaridades se devem ao fato de também sermos de um país do time dos descobertos, conquistados e exlorados, nesta ordem.
Em Cuba, como aqui, todos depositam esperanças no futuro e acreditam que o melhor está por vir, mesmo cientes de problemas como o crônico desabastecimento e a industria deficitária. Se lamentam terem passado por um governo torturador e assassino em pleno século XX (oi Brasil) – o Leonel não esqueceu o fato de ter ido reconhecer o cadáver dos irmãos, mortos misteriosamente – comemoram ainda a revolução conquistada com luta armada em 1959. O que é, aliás, motivo de orgulho que fica bem explícito quando o Leonel comenta satisfeito sobre uma ex-guerrilheira que recentemente assumiu o Brasil. Se ela foi contra a ditadura a ponto de ser guerrilheira, é porque tem coragem, e se ela tem coragem, isto é o mais importante, explica ele. Em Cuba, veja só, coragem é qualidade e das mais valorizadas.

