Dona Clara, viúva de 82 anos, diplomata aposentada e filiada ao Partido Comunista de Cuba, pretende doar os livros que eram do marido, hoje acondicionados com carinho em uma móvel na sala de um espaçoso apartamento de 3 quartos na rua “L”, em Vedado, um dos grandes bairros de Havana. O material, que inclui obras de Lenin, Fidel e Jose Marti, deverá ser mais útil em uma biblioteca, explica ela, antes de pedir que eu fotografe a estante, com os livros entremeados por porta-retratos, para que ela guarde uma recordação em imagem do acervo literário político do companheiro.
Um dos itens, já com as páginas roídas, narra a passagem de Fidel Castro pela URSS, na década de 60, viagem de cuja comitiva fez parte o fotógrafo pessoal dele, que cobriu boa parte dos capítulos pré e pós-revolução e ficou famoso por uma foto não do Fidel, mas do então comandante Ernesto Che Guevara, sério, olhar fixo, em tom quase fúnebre. Este exemplar descansa hoje em outra estante, não de uma biblioteca cubana, mas de uma residência brasileira.
A vovó, fanzaça-de-novelas-brasileiras-mas-que-não-curtiu-A-Favorita, ilustra bem a necessidade de se ganhar dinheiro, o que não significa que o socialismo terminou ou faliu. Carente de grande parte das indústrias e sofrendo com o bloqueio dos EUA como um ferido perdendo sangue, Cuba amarga uma situação econômica delicada, com o comércio internacional limitado. O que reflete no cotidiano da população, que não consegue viver apenas com o que se ganha em salário. Quem tem um quarto sobrando, pode apostar, está o alugando pra turista.
Cientes de que a vida não está fácil, a maioria dos que viveram a fase pré-revolução creem, como Dona Clara definiu, que “o problema de Cuba não é político, apenas econômico”. Esta visão, claro, não é compartilhada pelos jovens, que contestam a ausência de eleições e ambicionam migrar para outros pagos – caso do Darian, que vive em Cienfuegos, e quer ir morar no país que faz com que a família dele, como a Dona Clara, também tenha que colocar um aposento da casa à disposição de estrangeiros.
“No es facil”, como o povo repete incansavelmente, é o lema de quem está acostumado a dançar conforme a música, a conviver com a falta de itens banais no resto do mundo e ainda assim não deixa ser esquecido o passado recente, há pouco mais de meio século, quando, sob ditadura violenta até para os padrões de uma ditadura, um grupo de descontentes achou que era a hora de terminar com a exploração imperialista que deixava a população analfabeta e miserável e os gringos fazendo a festa. “Não estamos num paraíso, mas ao menos não há fome e não temos que nos preocupar com pagar saúde, educação e segurança, além de água, luz e gás serem praticamente de graça”, alfineta Esteban, filho de Dona Clara, bem-informado sobre o Brasil, me dando nos dedos.
